Instituto Jequitibá-Borá

Turismo sustentável: entre o discurso e a gestão real do território

Por que alguns destinos se consolidam ao longo do tempo enquanto outros entram em declínio, mesmo com forte apelo turístico?

24/04/2026

 

A resposta passa, cada vez mais, pela capacidade de integrar desenvolvimento econômico e gestão ambiental. Em um contexto de pressão crescente sobre recursos naturais e aumento do fluxo de visitantes, o turismo sustentável deixa de ser uma pauta normativa e se torna uma condição prática de viabilidade do território.

 

O que é turismo sustentável — e o que ele não é

A literatura especializada aponta que o turismo sustentável não se limita à dimensão ambiental. Trata-se de um modelo que articula três dimensões fundamentais — econômica, social e ambiental — buscando equilíbrio entre elas (Bramwell; Lane, 2011; Swarbrooke, 2000).

Segundo a Organização Mundial do Turismo, o turismo sustentável deve preservar recursos naturais e culturais, garantir qualidade de vida à população local, oferecer experiência qualificada ao visitante e manter a viabilidade econômica ao longo do tempo (UNWTO, 2018).

Isso significa que não se trata apenas de “reduzir impactos”, mas de reorganizar a atividade turística como um sistema econômico territorial sustentável.

Um equívoco recorrente — inclusive em políticas públicas — é confundir turismo sustentável com ecoturismo. A literatura demonstra que qualquer modalidade pode ser sustentável, desde que seja planejada, gerida e monitorada com critérios claros (Körössy, 2008).


Turismo como sistema complexo

O turismo deve ser compreendido como um sistema complexo, composto por múltiplos atores interdependentes: poder público, iniciativa privada, comunidades locais e visitantes (Beni, 2001).

Essa complexidade implica que:

  • decisões isoladas tendem a ser ineficientes
  • impactos ambientais rapidamente se convertem em impactos econômicos
  • a degradação de ativos naturais compromete diretamente a atratividade do destino

Quando há perda de qualidade ambiental — por exemplo, degradação de mananciais ou saturação da gestão de resíduos — o efeito não é apenas ecológico, mas econômico: reduz-se a competitividade do território turístico.

Sustentabilidade como vantagem competitiva

A sustentabilidade, nesse contexto, não é apenas um valor ético, mas uma estratégia econômica.

Estudos indicam que destinos que incorporam práticas sustentáveis tendem a:

  • atrair perfis de turistas mais qualificados
  • ampliar o tempo de permanência
  • elevar o gasto médio por visitante
  • fortalecer sua reputação no mercado (Araújo, 2019; UNWTO, 2018)

Além disso, pesquisas internacionais mostram que a maioria dos turistas considera aspectos de sustentabilidade na escolha de destinos, indicando uma mudança consistente no comportamento de consumo (Booking.com, 2023).

Isso reforça que a sustentabilidade está diretamente associada à qualidade da experiência turística, elemento central para fidelização e recomendação.

O limite do discurso: onde as políticas falham

Apesar do avanço conceitual, há uma distância significativa entre discurso e prática.

Muitas iniciativas classificadas como “sustentáveis” apresentam:

  • ausência de indicadores mensuráveis
  • baixa integração institucional
  • foco em comunicação, não em gestão
  • pouca relação com eficiência econômica

Esse cenário evidencia um ponto central: sem gestão, não há sustentabilidade.

A literatura enfatiza que a sustentabilidade exige critérios técnicos, monitoramento contínuo e capacidade institucional de implementação (Bramwell; Lane, 2011).

Sem esses elementos, o conceito perde consistência e se transforma em retórica.

O desafio da governança territorial

Talvez o maior desafio do turismo sustentável não seja ambiental, mas institucional.

A sustentabilidade depende de:

  • coordenação entre diferentes níveis de governo
  • integração regional
  • articulação entre interesses públicos e privados

Destinos turísticos operam em escalas que ultrapassam limites administrativos. Recursos hídricos, paisagens e fluxos turísticos não respeitam fronteiras municipais. Isso implica que a sustentabilidade exige governança territorial adequada, e não ações fragmentadas (Beni, 2001).

Considerações finais

O turismo sustentável não deve ser entendido como tendência ou nicho, mas como condição estrutural para a continuidade da atividade turística.

Mais do que preservar recursos, trata-se de:

  • manter a base econômica do território
  • qualificar a experiência turística
  • reduzir custos públicos associados à degradação ambiental
  • garantir competitividade no médio e longo prazo

O desafio contemporâneo não é conceitual, mas operacional. O futuro dos destinos turísticos dependerá da capacidade de transformar princípios em práticas efetivas de gestão.

 

Oswaldo Santos-Junior, é Geógrafo, professor universitário e Presidente do Instituto Ambiental Jequitibá-Borá

Referências

ARAÚJO, W. A. Turismo sustentável e indicadores econômicos. Revista de Turismo e Análise, 2019.

BENI, M. C. Análise estrutural do turismo. São Paulo: SENAC, 2001.

BOOKING.COM. Sustainable Travel Report 2023.

BRAMWELL, B.; LANE, B. Sustainable Tourism: An evolving global approach. Journal of Sustainable Tourism, 2011.

KÖRÖSSY, N. Turismo sustentável e desenvolvimento local. Caderno Virtual de Turismo, 2008.

SWARBROOKE, J. Turismo sustentável: conceitos e impactos ambientais. São Paulo: Aleph, 2000.

UNWTO – United Nations World Tourism Organization. Sustainable Development of Tourism, 2018.

 

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