Uma reflexão sobre os conceitos de fortuna e virtù em Maquiavel e sua contribuição para pensar o planejamento urbano e as políticas públicas ambientais locais.
29/05/2026
A crise ambiental não é obra do destino
A natureza produz a chuva; a política, em grande medida, define seus efeitos.
As cidades estão cada vez mais expostas aos efeitos das mudanças climáticas. Enchentes, secas prolongadas, ilhas de calor, perda de cobertura vegetal, escassez hídrica e eventos climáticos extremos deixaram de ser projeções futuras: tornaram-se parte da vida cotidiana. Diante desse cenário, uma pergunta se impõe: até que ponto os municípios podem agir frente a forças que parecem escapar ao seu controle?
Uma reflexão possível surge a partir do pensamento de Nicolau Maquiavel. Em O Príncipe, obra publicada em 1532, o autor apresenta dois conceitos fundamentais para compreender a política: fortuna[1] e virtù. Embora formulados há quase cinco séculos, esses conceitos ajudam a interpretar os desafios contemporâneos da gestão ambiental urbana.
A fortuna representa aquilo que escapa ao controle imediato: circunstâncias externas, acontecimentos imprevisíveis, crises e mudanças abruptas. Já a virtù corresponde à capacidade de agir estrategicamente, interpretar a realidade e tomar decisões capazes de alterar o curso dos acontecimentos.
Maquiavel afirma:
Julgo poder ser verdade que a fortuna seja árbitra da metade de nossas ações, mas que ainda nos deixe governar a outra metade, ou quase. (MAQUIAVEL, 2010, cap. XXV, p. 118).
A passagem é particularmente atual. Se as cidades não controlam totalmente a crise climática global, elas ainda possuem capacidade de ação. A questão central passa a ser: como utilizar essa margem de atuação?
A fortuna ambiental: quando a crise chega aos municípios
A crise climática pode ser compreendida como uma nova forma de fortuna ambiental.
Ela se manifesta por meio de processos que ultrapassam a escala local: mudanças globais no clima, pressões econômicas, degradação dos ecossistemas, queimadas, eventos extremos e transformações aceleradas dos territórios. São fenômenos que frequentemente escapam ao controle direto dos governos municipais, mas cujos efeitos recaem intensamente sobre as cidades.
No entanto, embora suas causas sejam amplas, seus impactos tornam-se concretos no território local. É no município que a chuva intensa transforma ruas em rios. É nos bairros socialmente mais vulneráveis que ocupações inadequadas ampliam riscos geológicos. É nas áreas urbanizadas sem planejamento que desaparecem nascentes, corredores ecológicos, áreas de infiltração e espaços fundamentais para o equilíbrio ambiental.
A fortuna ambiental chega ao cotidiano das cidades em forma de impactos reais sobre a vida das pessoas: interrupção do abastecimento de água, enchentes, erosão, perda de biodiversidade, aumento das ilhas de calor e ampliação das desigualdades socioambientais.
Em 2026, esse debate ganhou novo peso diante dos alertas científicos relacionados à possibilidade de ocorrência de um episódio intenso de El Niño. Historicamente, eventos dessa natureza têm alterado padrões de precipitação, intensificado secas em determinadas regiões, ampliado chuvas extremas em outras e provocado efeitos significativos sobre sistemas hídricos, agricultura e infraestrutura urbana. Quando fenômenos climáticos dessa escala encontram cidades despreparadas, os impactos tendem a ser potencializados.
O desafio, portanto, não consiste apenas em responder às emergências depois que elas acontecem. Exige capacidade de antecipação. Municípios precisam desenvolver instrumentos de adaptação climática, fortalecer a defesa civil, proteger áreas ambientalmente sensíveis, recuperar vegetação nativa e incorporar critérios ecológicos ao planejamento territorial.
Nesse sentido, instrumentos como o Plano Diretor e o Plano Municipal da Mata Atlântica (PMMA) deixam de ser meras exigências administrativas. Tornam-se ferramentas estratégicas para aumentar a resiliência territorial e reduzir vulnerabilidades futuras.
O problema surge quando gestores tratam esses acontecimentos como fatalidades inevitáveis, como se enchentes, secas ou perdas ambientais fossem apenas acidentes naturais sem relação com decisões políticas. Mas é importante reconhecer que não são.
Desastres ambientais frequentemente possuem dimensões sociais, econômicas e institucionais.
A natureza pode produzir a chuva; a política, em grande medida, define seus efeitos.
O desastre raramente nasce apenas do evento climático. Muitas vezes ele resulta também da ausência de planejamento, da fragilidade das políticas públicas e da incapacidade de transformar conhecimento em ação preventiva.
Aqui talvez esteja uma das lições mais atuais de Maquiavel: a fortuna pode criar o cenário da crise, mas a virtù determinará a capacidade coletiva de enfrentá-la.
Virtù municipal: governar é antecipar problemas
Se a fortuna apresenta os desafios, a virtù aparece na capacidade de enfrentá-los.
Em Maquiavel, governar não significa esperar passivamente pelos acontecimentos. Significa agir antes que as crises se tornem incontroláveis.
Em outra passagem célebre, o autor afirma: “A fortuna demonstra sua força onde não existe virtù preparada para resistir.” (MAQUIAVEL, 2010, cap. XXV, p. 117).
Municípios que atuam apenas de forma emergencial — respondendo a enchentes depois que elas ocorrem, combatendo queimadas apenas durante períodos críticos ou autorizando ocupações sem planejamento territorial — tornam-se reféns da própria improvisação.
Exercer virtù significa planejar.
Significa compreender que política ambiental não pode se limitar a ações pontuais, campanhas isoladas ou decisões tomadas exclusivamente sob pressão imediata.
Exige capacidade de construir estratégias permanentes.
PMMA e Plano Diretor: instrumentos para proteger o território
Entre os instrumentos fundamentais de ação municipal estão o Plano Diretor e o Plano Municipal da Mata Atlântica (PMMA).
Plano Diretor, previsto pelo Estatuto da Cidade, organiza o uso do território urbano, define áreas de expansão, proteção, mobilidade e orienta o crescimento das cidades.
Já o PMMA, fundamentado na Lei da Mata Atlântica, permite identificar remanescentes florestais, áreas prioritárias para conservação, corredores ecológicos, zonas frágeis e diretrizes de restauração ambiental.
Longe de representar um obstáculo ao desenvolvimento, o PMMA é uma ferramenta de planejamento. Seu objetivo não é impedir atividades econômicas, mas orientar o uso do território com base em critérios técnicos, reduzindo riscos ambientais, conflitos futuros e custos para a sociedade. Planejar adequadamente hoje é evitar problemas mais graves amanhã. O PMMA ajuda a orientar decisões melhores para o presente e para as futuras gerações, reduzindo custos públicos e aumentando a segurança jurídica para gestores, empreendedores e proprietários, protegendo o patrimônio ambiental, agricultura e o desenvolvimento local.
Quando esses instrumentos são tratados apenas como exigências burocráticas, perdem sua função estratégica, mas quando articulados, podem transformar a relação entre cidade e natureza.
Um Plano Diretor sem base ecológica tende a reproduzir conflitos territoriais. Um PMMA isolado, sem diálogo com o planejamento urbano, corre o risco de permanecer apenas no papel.
A integração entre ambos permite construir políticas públicas capazes de proteger mananciais, ampliar a conectividade ecológica, orientar ocupações urbanas e reduzir vulnerabilidades climáticas. Planejar o território é, antes de tudo, uma forma de prevenção.
O risco da inércia: quando a ausência de política se torna uma política
Existe um erro recorrente na gestão ambiental: acreditar que não decidir é permanecer neutro. Na prática, a ausência de políticas públicas também produz efeitos concretos.
Quando o planejamento é relativizado ou até negligenciado, outros interesses ocupam seu espaço: pressões imobiliárias, ocupações desordenadas, supressão inadequada da vegetação, impermeabilização excessiva do solo e decisões fragmentadas.
A inércia não suspende transformações; ela apenas transfere o poder de decisão.
A consequência costuma aparecer anos depois: aumento do risco hídrico, degradação dos ecossistemas urbanos, perda de qualidade de vida e ampliação das desigualdades ambientais.
A crise ecológica não é resultado apenas do que fazemos. Ela também decorre daquilo que deixamos de fazer.
Cidades resilientes precisam de ação política
Falar em sustentabilidade não pode significar apenas plantar árvores em datas comemorativas ou lançar campanhas publicitárias. A construção de cidades resilientes exige decisões estruturais:
- · proteção de nascentes e áreas de recarga hídrica;
- · recuperação de corredores ecológicos;
- · fortalecimento da arborização urbana;
- · ampliação da educação ambiental;
- · incentivo ao transporte coletivo sustentável;
- · integração entre planejamento urbano e conservação ambiental;
- · participação popular nos processos decisórios.
Isso exige enfrentar interesses imediatistas.
A virtù política contemporânea talvez seja justamente a coragem de pensar além dos ciclos eleitorais e construir políticas públicas capazes de produzir efeitos duradouros.
O futuro das cidades será uma escolha política
A crise ambiental apresenta desafios que nenhum município, estado ou mesmos países controlam integralmente. Mas a resposta a esses desafios continua sendo uma escolha política e econômica.
A fortuna pode trazer secas, enchentes e pressões ambientais crescentes. A virtù determina se as cidades responderão com improvisação ou planejamento.
Mais do que administrar crises, governar significa antecipá-las.
O futuro urbano dependerá cada vez menos da sorte e cada vez mais da capacidade de construir políticas públicas orientadas pela justiça ambiental, pela ciência e pela proteção dos territórios.
Claudete Pagotto
Doutora em Sociologia e Diretora do Instituto Ambiental Jequitibá-Borá
Referências
MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. Tradução de Lívio Xavier. São Paulo: Martin Claret, 2010.
BRASIL. Lei nº 10.257, de 10 de julho de 2001. Estatuto da Cidade.
BRASIL. Lei nº 11.428, de 22 de dezembro de 2006. Lei da Mata Atlântica.
BRASIL. Decreto nº 6.660, de 21 de novembro de 2008. Regulamenta a Lei da Mata Atlântica.
[1] Na tradição romana, Fortuna era a deusa da sorte e das mudanças imprevisíveis do destino. Maquiavel utiliza essa imagem para representar as circunstâncias externas que afetam a vida política e social, mas que podem ser enfrentadas pela ação humana por meio da virtù.
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